Raúl Castro : balanço dos 100 dias de governo
BUENOS AIRES , Argentina (De Rogério Perez- jornalista mineiro,atualmente chefe de redação do Jornal Hoje em Dia) –
Os primeiros 100 dias do afastamento-renúncia de Fidel Castro do comando de Cuba e da confirmação de Raúl Castro, irmão do ex-presidente e agora conselheiro e um dos defensores dos ideais da revolução cubana, como seu sucessor repercutiram nos jornais, rádios e televisões, também na Internet e outras mídias, no começo de junho. Ainda mais que com a virtual decisão dos democratas norte-americanos de confirmarem o negro norte-americano Barack Obama, derrotando Hillary Clinton, mulher de Bill Clinton, como adversário de John McClain, dos republicanos, na sucessão do atual presidente George W. Bush nas eleições dos EUA, ambos anunciando disposição de rever o bloqueio econômico, social e político e as sanções contra Cuba, até as relações menos duras contra o governo de Havana.
Raúl Castro assumiu, oficialmente e referendado pelo regime cubano, em 24 de fevereiro passado, e os jornais latino-americanos, especialmente os de língua espanhola, e toda mídia internacional estão prevendo novos rumos, lentos e graduais, para a revolução cubana e mudanças econômicas, sociais e nas relações com os Estados Unidos e o resto do mundo, a partir das reformas e medidas tomadas pelo novo governo revolucionário, que vão desde libertação de presos até menos restrições econômicas e, uma novidade cubana, a liberação de celulares, de moedas não oficiais e muitas medidas que agradam os cubanos e, principalmente, os observadores internacionais.
As medidas serão devidamente referendas ou não no VI Congresso del PCC (Partido Comunista Cubano) confirmado por Raúl e antes por Fidel, para o segundo semestre de 2009, dentro de um ano aproximadamente. Até lá, Cuba jamais será a mesma de Fulgêncio, o ditador, ou de Fidel Castro, o revolucionário. Será a Cuba de Raúl Castro, el nuevo presidente de Cuba.
A enfermidade do comandante Fidel Castro abriu espaço para uma distensão dentro e fora de Havana. Os mais conservadores consideram tíbias as mudanças e há mais expectativas do que certezas depois dos 100 primeiros dias do novo presidente. Por outro lado, os mais progressistas consideram que Cuba vai se tornar - como dizia Che Guevara, que vivo fosse estaria completando 80 anos em 14 de junho, com comemorações em Rosário, na província de Santa Fé na Argentina e em todo mundo latino-americano e socialista, que “hay que endurecer (o distender) pero sin perder la ternura jamás” - em um novo e grande exemplo da evolução e libertação, pela segunda vez, do indomável povo cubano, orgulhoso e certo de sua determinação mundial, sem preconceitos e sem imposições externas.
Raúl Castro, o novo e mais flexível homem forte de Cuba, já sabia, antes de assumir e começar as mudanças nos itens sociais e econômicos, que teria de adaptar-se ao novo momento histórico, o mais importante depois da derrubada de Batista e da invasão da Baia dos Porcos, pelos marines e cubanos exilados, no governo de John F. Keneddy, que quase gerou uma nova guerra mundial.“Llegou la hora del cambio”, dizem autoridades cubanas e também de fora de Havana.
Com muitos críticos, que o consideram um mero repetidor da idéias e teses de Fidel , Raúl Castro, novo presidente cubano, é identificado por ter uma visão utilitarista da política e suas anunciadas medidas são mais de esperança e expectativa do que de resultados práticos depois de três meses e dez dias de poder compartido, como diz a música de sucesso internacional “Lábios Compartidos” em espanhol e outras línguas.
Raúl tem repetido que “Revolución es cambiar todo lo que debe ser cambiado. Revolución es sentido del momento histórico”, uma das frases-chave ou clave como dizem os cubanos, do ideário defendido por Fidel Castro desde um discurso, longo e premonitório, de 26 de julho de 2007, quando ele já percebia que sua hora de líder revolucionário estava acabando e que deveria preparar a sucessão sem maiores traumas internos e externos. Daí as reformas, na maioria boas e óbvias, de agrado interno e externo, em quase quatro meses de mudanças dentro e fora do Palácio de Governo em Havana, terem suscitado, até agora, reações dispares e ideologicamente acentuadas.
Os pró-Cuba comemoram que a queda do regime socialista e a invasão dos cubanos exilados de Miami e toda Flórida não tenham se confirmado e os anti-Fidel e Raúl dizendo que eles não querem mudar nada e sim perpetuar o movimento vitorioso sobre o ditador Fulgêncio Batista, que mudou a história de Cuba e das Américas, nos anos 50 com seu governo desmoralizado e a maior roubalheira vista nas chamadas repúblicas-satélites dos EUA na América Central e também do Sul.
Há muita ideologia e pouca habilidade dos dois lados, mas o mais importante, dizem editoriais, analistas e gente que vive o dia-a-dia do bloqueio e das pressões e mazelas de dentro e fora de Havana, é que depois da saída estratégica, mas não total e incondicional de Fidel Castro, Cuba vive uma nova e menos traumática revolução. A sonhada revolução vitoriosa de Che Guevara e de todos que derrubaram Batista e depois enfrentaram o massacre comando pelos EUA e seus aliados, no mais longo bloqueio da história moderna ocidental.
“Los 100 dias del nuevo presidente Raúl Castro, o hermano de Fidel”, como é mais tratado, com certa ironia, pelos detratores, vão derrubando previsões apressadas e negativas, também euforias pós-queda do Muro de Berlim e outros ícones anti-socialistas ou comunistas modernos. Há esperança e esceptismo (ceticismo) dizem os correspondentes de Havana aqui no Cone Sul, como César Luiz González Calero, do conservador e influente ” La Nacion “, de Buenos Aires, em seu balanço das reformas, direto de Havana e em falas a rádios e televisões.
É assim que Cuba, Havana, Raúl Castro, os cubanos da Ilha e os que esperam grandes mudanças direto de Miami (a pronúncia correta é como se escreve míamí e não maiami como querem os brasileiros da mídia) e de outros centros de exílio, voluntário na maioria, dos que queriam seguir com a ditadura que favorecia as elites cubanas e muitos interesses, ilegais e escusos, ou se desentenderam como os rumos da vitoriosa empreitada de Sierra Maestra e suas conseqüências, que tanta discussão e atritos provocam pelo mundo todo.
Fora de Havana ou nos EUA e outras partes, embora a maioria dos povos e nações sempre seja a favor e até trabalham no apoio a Cuba, seja de Fidel ou agora de Raúl Castro. Há investimentos, turismo, ajuda humanitária e uma simpatia pelos cubanos que é fácil de constatar, na mídia menos conservadora e fora dela.
É o ideal da verdadeira Cuba Libre, que não é apenas um nome de um coquetel de rum negro e coca-cuela como dizem os brasileiros em portunhol. Há expectativa, palavra mais usada em toda mídia, em especial nos países de língua espanhola e francesa, que a nova Cuba va ser ainda melhor que a atual, que tem índices de Primeiro Mundo em saúde, medicina preventiva, educação, esportes e cultura. “A la gente se la se ve esperanzada por primera vez em mucho tiempo” dizem os cubanos comprometidos com Fidel e Raúl. Já os contra, repetem frases-chavão como “No ha cambiando nada. El futuro pinta gris (cinza) com despuntes (detalhes) negros” falam habaneros que querem a volta de um ambiente de 50 anos atrás, que a grande maioria renega e tanto que hoje apóia Raúl Castro, como apoiava, não com tanto charme e ideal revolucionário, Fidel Castro
. É a Havana e a Cuba 100 dias depois de Fidel sair de cena para ficar nos bastidores e nos editoriais do “Gramma”, jornal mais influente do governo cubano e da Ilha .
Na verdade os dois lados da moeda cubana são igualmente fáceis de defender. Mas a dignidade e o respeito dos cubanos, que vivem em Havana e Varadero, em Matanzas e nas cidades menos conhecidas, da bela e misteriosa Ilha de Cuba, o maior símbolo da resistência de um povo no pós-guerra. Raúl Castro fez 77 anos, dia 3 passado, e Fidel já passou dos 80 anos.
Fidel,que sobreviveu a 10 presidentes norte-americanos, ainda defende certas restrições e teme que os EUA e aliados sufoquem as conquistas pós-revolucionárias que são conhecidas e enaltecidas desde os esportes à saúde, tratamentos especiais, educação e parâmetros de qualidade de vida, em suposta defesa de liberdades políticas ou econômicas. Raúl Castro, timidamente, quer ir fazendo a abertura econômica e social, com avanços que vão desde liberação de celulares, a acesso a hotéis cinco estrelas, compras e contratos em Cuba e exterior. Uma certeza é geral: Cuba não será mais a mesma depois da saída voluntária de Fidel e da posse, há mais de 100 dias, de Raúl Castro. O sonho que ia completar 80 anos em meados de junho do líder e real pensador da Revolução Cubana dos anos 50, Ernesto Che Guevara, está vivo, na memória e nos corações e mentes de cada cubano, na Ilha do Caribe ou espalhados pelo mundo. Cuba vive! (RP)
